O Dia em que o Ten Cavalcante interrompeu os pousos e decolagens no Aeroporto Santos Dumont

Tudo tem um porquê na vida, e aqui essa história começa numa sexta-feira, não me recordo o mês, em  1994, estava chegando para cumprir mais um serviço de oficial de dia do III COMAR. Eu, Ten Cavalcante, fui surpreendido com a notícia dada pelo Oficial de Dia que eu substituía, que no dia anterior o teto que era de madeira, desabou com um monte de caixas de processos, e doc. diversos em cima da Ten do QFO, que não lembro o nome, e teve parece que sua clavícula fraturada, escapou da morte, pois o peso veio em cima de seu ombro e não sobre sua cabeça.

Mediante essa informação, ao entrar no quarto de oficial de Dia, observei que haviam muitas caixas empilhadas no mesmo tipo de teto que era de madeira vasada, e que havia desabado no dia anterior em outro setor.  O detalhe, é que no quarto do oficial de dia, metade do teto era madeira vasada, a outra metade era laje. O problema é que a cama do oficial de dia ficava exatamente em baixo do teto de madeira vasada, e o alarme geral do III COMAR ficava exatamente acima da cabeceira da cama.
Observei aquela situação, e resolvi que quando fosse próximo do término do expediente do III COMAR, por volta de 17:15h, iria mudar a cama de lugar com o armário.

E quando chegou essa hora, fiz a mudança, pequei a cama passei para o lugar do armário, e esse foi para o lugar da cama; Passado alguns instantes, quando eu já me preparava para ir tomar um banho, o Sgt de Dia bate à porta e informa que acionaram o alarme geral do quartel, e que o sistema de segurança do III COMAR teria sido acionado, nesta mesma hora, me visto rapidamente, e saio com o Sgt de Dia para saber o que estava acontecendo. A esta altura o Batalhão do BINFA do III COMAR já estava a postos, e ocupou todos os pontos estratégicos da área do III COMAR até ao fundo para o lado da Baía de Guanabara, como também na pista do aeroporto, pois até então não sabíamos qual era o tipo de ameaça, e por isso pousos e decolagens foram suspensos no aeroporto.

Ninguém entrava, e ninguém saía do quartel. Estava próximo da entrada do Portão Principal do quartel, quando de repente, me veio à memória que o alarme que ficava na cabeceira da cama, agora estava atrás do armário, corri até o quarto de oficial de Dia, torcendo para que não fosse o armário que eu empurrara que havia acionado o alarme,  e quando arrastei o armário para frente,  neste momento, ouvi que ao fundo, o som da sirene geral do III COMAR silenciou, tive a certeza que eu estava com um enorme problema. E agora? Nossa, imaginei: Serei preso, e se der sorte, perderei apenas meu  final de semana por provocar tamanha confusão em plena sexta-feira.

O Chefe de Gabinete, Cel Batalha me liga e quer saber o que está acontecendo, falei a verdade sobre o ocorrido, e a única frase dele para mim, foi a seguinte: “Rapaz te prepara para o pior, está havendo uma reunião com diversos comandantes de unidades do Rio com o Maj. Brig. Elislande, e ele me pediu pra saber o que estava ocorrendo e terei que contar o que você me passou.”

Fui para a portão principal do III Comar, desativamos o acionamento de segurança, tudo voltou ao normal, em seguida aparece à minha frente o Maj. Brig. Elislande com todos os comandantes que estavam com ele numa reunião, inclusive o Cel. Batalha que já havia previsto o pior para mim, eu bati continência, e ele veio até mim, cumprimentou-me com um aperto de mão e me falou o seguinte: “Cavalcante, queria cumprimentar você, e toda sua equipe, sei que o acionamento não foi intencional, mas eu mesmo já estava querendo fazer um teste surpresa no acionamento do alarme geral há quase 2 anos que estou aqui, mas não o fiz, e você me proporcionou a realização desta minha intenção, e o que me deixou mais contente foi que todo o esquema de segurança ocorreu conforme  o planejado.  Só poderíamos avaliar o esquema de segurança com um teste surpresa sem que ninguém soubesse, e você proporcionou isso para esse comando. Parabenize a todos de sua equipe que estão contigo neste serviço.”

Ao fundo, enquanto o Maj Brigadeiro Elislande proferia suas palavras, o Cel Batalha, olhava pra mim, e sacudia a cabeça, como quem diz, tu és um cara de sorte. Me deu vontade de rir, mas tive que me segurar, pois para mim viria uma ordem de prisão, e de repente vem um elogio, é algo antagônico ao que imaginava.

Depois desse fato, entendi que um grande líder não se deixa influenciar com opiniões alheias, sobre problemas ocorridos, mas sim, aproveita para avaliar de fato como foram os resultados das ações implementadas por sua gestão para enfrentar o problema detectado.  

Aprendi também que devemos parar de reclamar das coisas que acontecem, e nunca se acomodar. Ir à luta em busca de nossos ideais. Seguir sempre em frente, em busca de um sonho, quando este se realizar, invista em outro.

Depois desse ocorrido, toda vez que eu estava de serviço no III Comar, o Brig. Elislande assim que chegava, me convidava para tomar um café com ele.

O Final foi feliz. Não fui preso, e no dia seguinte passei o serviço para outro colega que me rendeu, e é isso. Vida que segue...risos....

Aproveito para desejar a todos um Feliz 2020 repleto de saúde, amor, paz e muita prosperidade. Deus abençoe a todos vocês e seus familiares!

Lecivaldo Cavalcante Lacerda Lima (Ten Cavalcante)

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No link a seguir tenho algumas poesias publicadas 

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